segunda-feira, 9 de março de 2020

Sexo e os sentimentos.


Sexo é sinônimo de prazer. 
Erotismo, luxúria, pecado, sacanagem. 
O sexo traz em si um cenário
de mil e uma noites de promessas,
todas voltadas para a volúpia. 
Quem nunca praticou, 
é tomado por fantasias libidinosas extraídas do cinema, 
das revistas masculinas e de piadas e relatos picantes
que garantem não existir nada melhor na vida,
 para horror dos sentimentais e dos pudicos. 
Sexo melhor que amor? Heresia, fim do mundo.
Faltou dizer que sexo não é apenas prazer: ele é plural,
dispara uma conjunção de sensações físicas 
de alta intensidade que comovem 
e podem nos levar à paixão – senão pelo outro,
com certeza por nós mesmos,
tamanho é o processo de autoconhecimento que ele dispara.
Não estou falando, obviamente, 
dos encontros de uma noite só,
as chamadas “one night stand”, 
em que mal se sabe o nome da pessoa 
com quem estamos e cuja finalidade
é praticamente aeróbica,
uma aventura para apimentar o cotidiano. 
Ato sexual não é a mesma coisa que relação sexual.
Quando há relação, todos os sentimentos do mundo
invadem a cama – e de uma forma tão contraditória 
que começa aí o espanto e a graça da coisa.
Podemos, em nossa rotina de trabalho,
ser um funcionário obediente, cumpridor de horários,
servo de nossos patrões, e à noite, na cama, 
sermos dominadores, entrando no jogo erótico
de assumir o controle e dar ordens. 
Ou, ao contrário: depois de um dia liderando
e estimulando vários profissionais, 
nos tornarmos submissos sobre os lençóis, 
a ponto de escutarmos palavras 
que normalmente nos ofenderiam e humilhariam, 
mas que naquele momento se prestam ao cenário e à cena:
excitação resulta de alguma performance também.
Esta variação de comportamento,
ao mesmo tempo inocente e indecente, 
só é possível porque temos a segurança de saber
que naquele instante não haverá julgamento moral, 
e sim entrega absoluta – e rara. 
Sexo envolve plena confiança, ou ficaríamos travados, 
temendo cair no ridículo.
Desperta a coragem para permitir 
que nossos desejos mais secretos 
sejam expostos e realizados.
Exige compreensão do tempo que cada um precisa
para se desnudar de seus pudores.
Requer um olhar generoso e terno 
para a desinibição do outro e, sobretudo, inteligência
– sim, inteligência – para lidar com tudo que há de estranho,
ilógico e dicotômico neste embate íntimo.
Costumamos valorizar o corpão (que a maioria não tem), 
mas uma cabeça boa é que faz toda a diferença
entre o sexo vigoroso e o sexo protocolar.
Diante desta universalidade de sensações,
faz sentido dizer que sexo vale menos que amor? 
Essa hierarquia só existe 
para os excessivamente românticos, 
apegados aos contos de fada. 
Não é por acaso que transar é sinônimo de “fazer amor”,
pois é disso mesmo que se trata, 
de um êxtase emocional e não apenas físico 
(ainda que “fazer amor” seja uma expressão enjoada). 
Sexo pode ser bandido, perverso e impuro em sua essência, 
nunca em sua conotação.
Em análise, sexo é sublime também.

Martha Medeiros

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