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quinta-feira, 17 de julho de 2014

Mãe desnecessária.


A boa mãe é aquela que vai se tornando
 desnecessária com o passar do tempo. 
Várias vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase, 
e ela sempre me soou estranha. 
Até agora.
Agora, quando minha filha 
de *18 anos começa a dar vôos-solo.
Chegou a hora de reprimir de vez o impulso
 natural materno de querer colocar a cria
 embaixo da asa, protegida de todos os erros, 
tristezas e perigos. 
Uma batalha hercúlea, confesso. 
Quando começo a esmorecer na luta para controlar 
a super-mãe que todas temos dentro de nós,
 lembro logo da frase, hoje absolutamente clara.
Se eu fiz o meu trabalho direito,
tenho que me tornar desnecessária. 
Antes que alguma mãe apressada 
me acuse de desamor, explico o que significa isso.

Ser “desnecessária” é não deixar 
que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, 
provoque vício e dependência nos filhos, 
como uma droga,
 a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, 
confiantes e independentes. 
Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, 
superar suas frustrações
e cometer os próprios erros também. 
A cada fase da vida,
vamos cortando e refazendo o cordão umbilical.
A cada nova fase, 
uma nova perda é um novo ganho, 
para os dois lados, mãe e filho. 
Porque o amor é um processo de libertação permanente 
e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida.
Até o dia em que os filhos se tornam adultos, 
constituem a própria família e recomeçam o ciclo.
O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá,
firmes, na concordância ou na divergência,
no sucesso ou no fracasso, 
com o peito aberto para o aconchego, 
o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis.
Pai e mãe – solidários – criam filhos para serem livres. 
Esse é o maior desafio e a principal missão.
Ao aprendermos a ser “desnecessários”,
nos transformamos em porto seguro 
para quando eles decidirem atracar.

Márcia Neder