Passei por um casal discutindo num ponto de ônibus.
A moça estava uma arara, mas aludiu a outro bicho:
“Não tenho sangue de barata!”
gritava ela pra justificar seu destempero.
Passei reto, mas encasquetei:
barata teria sangue mesmo?
Pelo que pesquisei, tem uma gosma chamada hemolinfa
que não apresenta pigmentos como a hemoglobina,
e por isso é transparente
e não conduz sensibilidade até o coração,
como acontece com os seres humanos.
Daí o surgimento da expressão popular
“ter sangue de barata”,
que significa que a pessoa
não reage quando é atingida, fica apática.
Não ter sangue de barata é uma virtude.
Seres humanos são reagentes por natureza,
lutam pelos seus desejos,
brigam por suas ideias, inflamam-se.
Porém, fiz um rápido flashback
dos momentos em que eu deveria
ter feito a casa cair,
soltado os cachorros e demais reações
de quem tem sangue de verdade correndo nas veias,
e concluí que tenho uma infeliz familiaridade
com o tal inseto.
Minha sensibilidade alcança o coração, lógico,
mas não provoca grandes curtos-circuitos.
Ninguém precisa me pedir para ficar fria,
sou praticamente um Buda.
Outro dia um psiquiatra me perguntou
onde eu despejava a minha raiva e, constrangida,
tive que admitir que vim ao mundo sem esse explosivo.
Nasci pouco antes de completar os nove meses de gestação
e deve ter sido essa pressa em existir
que me fez chegar aqui incompleta.
Não deu tempo de incluir a raiva no meu DNA.
Amo, sofro, choro, me frustro, me encanto, me assusto,
me emociono e cometo seis dos sete pecados capitais,
menos a ira, que faltou no meu código genético.
Tenho, pois, sangue de barata.
Por um lado, é útil.
Me safei de ficar berrando em paradas de ônibus,
derramando copos de cerveja
sobre a cabeça de namorados,
dando piti em fila de cinema, revidando e-mails grosseiros,
comprando brigas desnecessárias.
Não chego a ser o sonho do Procon:
reivindico meus direitos legais,
mas quando o caso é de discordância
ou falta de sintonia,
simplesmente sumo, desapareço.
Prefiro tratar da minha vida a vencer uma discussão.
Pode não ser nobre,
mas só eu sei o que essa inclinação para a paz
me devolve em benefícios, e não são poucos.
Quase tudo que conquistei na vida (desconte o exagero)
foi por ter sangue de barata.
O silêncio em meio a discussões estéreis,
a confiança de que as pessoas cansarão
se eu não der corda para suas maluquices,
a compaixão por quem não tem condição de expandir-se,
a calma diante de provocações,
a tolerância com alguns desaforos
e a paciência para aguardar a hora exata de cair fora.
Falando nisso, o que o Brasil mais tem feito
é testar o meu sangue de barata.
Não creio que mudarei de tática,
mas a continuar o avanço do nosso atraso,
a barata pode voar.
Martha Medeiros

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