terça-feira, 10 de março de 2020

Sangue de barata


Passei por um casal discutindo num ponto de ônibus. 
A moça estava uma arara, mas aludiu a outro bicho:
“Não tenho sangue de barata!” 
gritava ela pra justificar seu destempero. 
Passei reto, mas encasquetei:
barata teria sangue mesmo? 
Pelo que pesquisei, tem uma gosma chamada hemolinfa 
que não apresenta pigmentos como a hemoglobina, 
e por isso é transparente 
e não conduz sensibilidade até o coração, 
como acontece com os seres humanos. 
Daí o surgimento da expressão popular 
“ter sangue de barata”, 
que significa que a pessoa
não reage quando é atingida, fica apática.
Não ter sangue de barata é uma virtude. 
Seres humanos são reagentes por natureza,
lutam pelos seus desejos,
brigam por suas ideias, inflamam-se. 
Porém, fiz um rápido flashback 
dos momentos em que eu deveria 
ter feito a casa cair,
soltado os cachorros e demais reações 
de quem tem sangue de verdade correndo nas veias,
e concluí que tenho uma infeliz familiaridade
com o tal inseto.
Minha sensibilidade alcança o coração, lógico,
mas não provoca grandes curtos-circuitos. 
Ninguém precisa me pedir para ficar fria,
sou praticamente um Buda. 
Outro dia um psiquiatra me perguntou 
onde eu despejava a minha raiva e, constrangida,
tive que admitir que vim ao mundo sem esse explosivo. 
Nasci pouco antes de completar os nove meses de gestação
e deve ter sido essa pressa em existir 
que me fez chegar aqui incompleta. 
Não deu tempo de incluir a raiva no meu DNA.
Amo, sofro, choro, me frustro, me encanto, me assusto,
me emociono e cometo seis dos sete pecados capitais, 
menos a ira, que faltou no meu código genético.
Tenho, pois, sangue de barata.
Por um lado, é útil.
Me safei de ficar berrando em paradas de ônibus, 
derramando copos de cerveja 
sobre a cabeça de namorados,
dando piti em fila de cinema, revidando e-mails grosseiros, 
comprando brigas desnecessárias. 
Não chego a ser o sonho do Procon: 
reivindico meus direitos legais,
mas quando o caso é de discordância
ou falta de sintonia,
simplesmente sumo, desapareço. 
Prefiro tratar da minha vida a vencer uma discussão. 
Pode não ser nobre,
mas só eu sei o que essa inclinação para a paz
me devolve em benefícios, e não são poucos.
 Quase tudo que conquistei na vida (desconte o exagero) 
foi por ter sangue de barata. 
O silêncio em meio a discussões estéreis,
a confiança de que as pessoas cansarão 
se eu não der corda para suas maluquices, 
a compaixão por quem não tem condição de expandir-se, 
a calma diante de provocações,
a tolerância com alguns desaforos 
e a paciência para aguardar a hora exata de cair fora.
Falando nisso, o que o Brasil mais tem feito
é testar o meu sangue de barata.
Não creio que mudarei de tática,
mas a continuar o avanço do nosso atraso, 
a barata pode voar.

Martha Medeiros

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