sexta-feira, 20 de março de 2020

DAR AS MÃOS


A Filarmônica de Berlim
liberou sua plataforma digital 
O usuário pode se registrar com o código BERLINPHIL
e ter acesso gratuito a todos os concertos
e documentários por um período de 30 dias
(o test drive normal é de sete dias, foi ampliado para 30). 
Em tempos de confinamento, uma gentil oferta da casa.
Muitos jornais liberaram o acesso
de seus conteúdos online a não assinantes,
a fim de que as informações sobre o coronavírus
alcancem o maior número de pessoas.
Em condomínios, há bilhetes de vizinhos 
nos espelhos do elevador e nas paredes dos corredores:
eles se oferecem para ir a farmácias e a mercados
para o idoso da porta ao lado.
Além disso, voluntários se predispõem a serem
“anjos da guarda” no whastapp.
Descobrem o contato de alguém com mais de 60 anos
que more sozinho e mandam mensagens diárias, 
perguntando se ele está dormindo bem,
se tem algum sintoma, se deseja conversar.
Um antídoto afetivo contra o isolamento.
Italianos cantam nas janelas, 
criando um coro improvisado 
e garantindo diversão comunitária. 
Um tenor profissional fez uma apresentação em sua varanda,
num andar alto: ópera a céu aberto.
Um professor de ginástica foi sozinho
para o playground interno do edifício,
cercado por apartamentos, 
e conduziu uma sessão de exercícios
para quem o observava de dentro de suas salas.
Há muitas maneiras de dar a mão 
sem precisar tocá-las fisicamente. 
Beijos e abraços foram cancelados, 
mas a solidariedade emergiu, 
e essa é a boa notícia em meio ao espanto
da nova condição mundial. 
Solidariedade que precisa ser mantida
quando as contaminações reduzirem
e as sequelas econômicas aparecerem 
para nos cumprimentar.
Que oportunidade de ouro para sermos mais coletivos 
e menos individualistas.
Até aqui, era cada um por si, era só o lucro que interessava,
era a transferência de responsabilidade
que mandava no jogo: “os políticos que cuidem da nação”, 
“os outros que se virem sem mim”. 
Não há mais “os outros”, somos um imenso “nós”. 
Eu, tu e eles no mesmo barco.
Sem união, a gente vai esticar esse drama 
por mais tempo do que o necessário.
O que você pode fazer, 
além de lavar bem as mãos e manter-se em casa? 
Ler livros. Leitura é hábito privado, 
não requer um espaço público. 
Conversar mais com os filhos. Ver filmes.
Estudar idiomas. Arrumar os armários. 
Fazer mais sexo
(dizem que ajuda na imunização; 
se for fake news, não me conte). 
Tentar se desapegar das redes sociais para não pirar. 
Tirar proveito da sua introspecção.
Vai passar. 
E quando passar, que a gente saia dessa 
melhor do que entrou
- regra básica para qualquer período de transição.

Martha Medeiros

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