sábado, 4 de janeiro de 2020

As mães nunca morrem.


Há uma frase linda, atribuída a Marcos Luedy, 
que diz: “As mães nunca morrem.
Elas entardecem, tingem de nuvens os cabelos
e viram pôr do sol”.

Estive refletindo sobre essa frase recentemente,
depois que um amigo perdeu a mãe repentinamente. 
É difícil consolar alguém numa situação dessas,
ainda mais se nunca passamos por isso. 
Mas imagino que, com o tempo, essa falta 
se transforme em algo mais suave e suportável,
semelhante à descoberta de que as mães não morrem, 
elas continuam vivas dentro de nós, nos gestos, 
nas características que herdamos 
e principalmente no olhar que é nosso,
mas que a partir desse momento também 
carregará um tanto da percepção e sensibilidade delas.

Lidar com a ausência, 
com a dor dilacerante proveniente da falta,
com o vazio que resta
e que não pode ser preenchido por nada,
é difícil e assustador. 
Mas então, num dia inesperado, 
talvez a gente entenda que as coisas não acabam,
elas se transformam. 
E com as mães não poderia ser diferente.
Mais que importantes, 
elas são matrizes do tecido de que somos feitos.
Mais que necessárias, são um eco dentro de nós 
nos lembrando o caminho a seguir. 
E mesmo aquelas que não geraram, 
emprestaram a seus filhos características 
que ajudaram a construir quem eles se tornaram. 
Isso não se perde quando elas partem.
Sempre residirá naquele emaranhado de histórias,
manias, gestos e percepções, 
se somando às experiências vividas e adquiridas, 
mas permanecendo e resistindo 
como memória viva e indestrutível.

Minha mãe tem o belíssimo costume 
de fazer livros de memórias para seus netos. 
Em cada página, um pedacinho de si mesma
e de seu afeto por eles e por nós, seus filhos. 
Esses cadernos decorados serão herdados
pelas nossas crianças e perpetuarão a memória 
de minha mãe no futuro. 
Porém, muito além da garantia dos cadernos, 
ela permanecerá viva pela forma 
como toca cada um de nós: 
com amor, alegria, generosidade e compreensão. 
Enquanto nós vivermos, 
essas sensações jamais serão perdidas.

As mães nunca morrem. 
Elas se afastam, e a neblina das primeiras horas
encobre o que antes era visível e palpável. 
Dentro de nós, antigos sons chamando para o jantar 
ou contando histórias antes de dormir 
nos dão a certeza de que, mesmo que se diga
que tudo passa, elas não passarão. 
O que acontece é que elas se transformam. 
Vão entardecendo e sendo encobertas, 
mas caminharão para sempre junto de nós, 
na alma e no coração.

Fabíola Simões

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