quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Humor é coisa séria.


Inverter o estabelecido: transformar o notável em banal, 
o defeito em virtude, a derrota em vitória. 
O olhar renovado para velhas convicções 
desperta a nossa consciência e solta o nosso riso.
Um dia desses, um amigo me enviou 
uma piadinha por whatsapp e eu não respondi nada, 
que é o máximo de educação que eu consigo manter
diante de uma foto bizarra 
acompanhada de um trocadilho infame.
Ele deveria ter se tocado que não agradou 
e deixado por isso mesmo,
mas resolveu cobrar pelo meu silêncio: 
pô, humor tem que ser sempre inteligente?
Que eu saiba, só existe humor na inteligência.
 Na falta dela, reside a idiotice.
Eu sei, eu sei. 
Estou parecendo extremamente mal-humorada, 
mas diante desta histeria coletiva de se mandar
duzentas mil gracinhas para os grupos de whatsapp,
é preciso ficar atento. 
Quando fazemos parte de uma turma íntima, vá lá,
a idiotice pode funcionar como uma válvula de escape
para as tensões do dia a dia,
além de ser uma forma de manter contato
– a troca de piadas tolas
substitui a cervejinha no fim de tarde 
que não se teve tempo de tomar. 
Em todo caso, é bom cuidar para que 
a bobajada intramuros não vire alienação irreversível.
Humor bom é humor crítico.
Pense na Escolinha do Professor Raimundo
e na Porta dos Fundos, por exemplo.
Duas épocas e duas linguagens completamente diferentes,
mas a crítica está ali, no subtexto.
Uma é mais popular e alegórica, 
a outra é mais ácida e realista, 
mas ambas prestam homenagem à sua,
à minha, à nossa inteligência.
O humor combate a hipocrisia.
O humor é uma via de transcender a mediocridade. 
O humor estimula o raciocínio e a reflexão. 
O humor desestabiliza. 
O humor ridiculariza o status quo. 
O humor empodera movimentos 
(“Homem não gosta de calcinha bege.
Poxa, manda ele usar uma cor-de-rosa então”).
O humor nos insulta e nos obriga a rir de nós mesmos, 
nos reposicionando no mundo de uma forma 
menos solene e mais humana. 
É o antídoto mais eficaz contra a arrogância.
Inverter o estabelecido: transformar o notável em banal, 
o defeito em virtude, a derrota em vitória.
O olhar renovado para velhas convicções 
desperta a nossa consciência e solta o nosso riso, 
seja através da paródia, da sátira, da imitação, 
da ironia, do exagero, do besteirol. 
Até mesmo aquilo que é engraçado sem querer
(o uso de um chapéu totalmente sem noção, por exemplo,
ou se desequilibrar e cair da cadeira)
tem uma espontaneidade que quebra o protocolo.
Qual a quebra de protocolo que há no trocadilho?
É um humor tão simplório que até constrange.
Pra quem deseja ir mais fundo no assunto,
vale a pena ler o livro
“A doença, o sofrimento e a morte entram num bar”, 
do português Ricardo Araújo Pereira. 
Ajuda a entender que o humor serve 
para acordar os neurônios, não para anestesiá-los,
e que a ignorância só produz sorrisos amarelos.

Martha Medeiros

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