quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Crônica Almas gêmeas.


Anda difícil colocar a mão no fogo
pelo amor eterno entre dois seres, 
então elejo aqui um casal que, este sim,
raramente se separa, e quando separa, reata.
Falo do Sr. Entusiasmo e do Sr. Pânico.
 Masculino com masculino,
alguém ainda se constrange com isso?
Então avante: onde você enxergar o Entusiasmo,
pode ter certeza de que o Pânico estará por perto. 
E quando enxergar o Pânico, 
saiba que o Entusiasmo estará à espreita. 
Um não circula sem o outro.
Vamos andar de balão? 
Vamos montar um cavalo selvagem? 
Vamos fazer um rali noturno?
Tudo o que puder ser designado como radical 
leva o casal junto, entrelaçado.
E já que estamos falando em casal, pense em vocês dois. 
Sim, você e aquela criatura 
que era a última pessoa do mundo 
para quem você olharia duas vezes,
mas olhou e quase enlouqueceu de entusiasmo 
pelo mundo novo que se descortinava
e de pânico pelo buraco que se abria.
A criatura era tudo o que você sonhava
e nada do que você queria, 
como foi possível isso acontecer ao mesmo tempo?
Entusiasmo e Pânico.
Será que esses dois não se desgrudam nunca?
Você se divorciou. 
Está livre, leve, solto e mal-intencionado:
bem-vinda solidão depois de anos amarrado. 
O Entusiasmo brinda com os amigos no bar,
enquanto o Pânico chora escondido.
Seu primeiro livro foi concluído,
agora todos finalmente saberão 
o que se passa em seu íntimo, o talento que você tem, 
o talento que você não tem, a pretensão que lhe sobra, 
a genialidade que escondia: o que irá prevalecer?
Sem colocar o livro na rua, nunca saberá.
 Distribuindo-o, saberá. 
Duas hipóteses igualmente tentadoras e apavorantes.
Prometem ser fiéis na alegria e na tristeza? 
Escândalo e Pânico 
respondem juntos que sim e trocam alianças. 
Só a morte os separa, só a morte, que é quando
o Entusiasmo some e deixa o Pânico na mão.

Martha Medeiros

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