Anda difícil colocar a mão no fogo
pelo amor eterno entre dois seres,
então elejo aqui um casal que, este sim,
raramente se separa, e quando separa, reata.
Falo do Sr. Entusiasmo e do Sr. Pânico.
Masculino com masculino,
alguém ainda se constrange com isso?
Então avante: onde você enxergar o Entusiasmo,
pode ter certeza de que o Pânico estará por perto.
E quando enxergar o Pânico,
saiba que o Entusiasmo estará à espreita.
Um não circula sem o outro.
Vamos andar de balão?
Vamos montar um cavalo selvagem?
Vamos fazer um rali noturno?
Tudo o que puder ser designado como radical
leva o casal junto, entrelaçado.
E já que estamos falando em casal, pense em vocês dois.
Sim, você e aquela criatura
que era a última pessoa do mundo
para quem você olharia duas vezes,
mas olhou e quase enlouqueceu de entusiasmo
pelo mundo novo que se descortinava
e de pânico pelo buraco que se abria.
A criatura era tudo o que você sonhava
e nada do que você queria,
como foi possível isso acontecer ao mesmo tempo?
Entusiasmo e Pânico.
Será que esses dois não se desgrudam nunca?
Você se divorciou.
Está livre, leve, solto e mal-intencionado:
bem-vinda solidão depois de anos amarrado.
O Entusiasmo brinda com os amigos no bar,
enquanto o Pânico chora escondido.
Seu primeiro livro foi concluído,
agora todos finalmente saberão
o que se passa em seu íntimo, o talento que você tem,
o talento que você não tem, a pretensão que lhe sobra,
a genialidade que escondia: o que irá prevalecer?
Sem colocar o livro na rua, nunca saberá.
Distribuindo-o, saberá.
Duas hipóteses igualmente tentadoras e apavorantes.
Prometem ser fiéis na alegria e na tristeza?
Escândalo e Pânico
respondem juntos que sim e trocam alianças.
Só a morte os separa, só a morte, que é quando
o Entusiasmo some e deixa o Pânico na mão.
Martha Medeiros

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