terça-feira, 22 de outubro de 2019

Eu nos outros.


O que me impede de tosar o cabelo,
fazer uma tatuagem no braço
 e comprar uma jaqueta vermelha? Nada. 
Simplesmente acontece de a gente
 gostar muito de certas coisas, 
mesmo não tendo impulso suficiente 
para adotá-las como nossas. 
É um exercício elevado de apreciação: 
saúdo quem acorda às 5h da manhã para correr 
e também quem atravessa a noite dançando 
– não faço uma coisa nem outra. 
Admiro quem tira um ano sabático
 para meditar num ashram
 e também quem vai a Nova York de três em três meses. 
Quem decide não ter filhos
 e quem tem e ainda adota alguns. 
Quem coleciona amantes 
e quem mantém um único e eterno casamento. 
Quisera eu poder contar com sete vidas 
para abraçar todos os jeitos de ser e de estar no mundo,
 mas tendo uma vidinha só, 
faço as escolhas que melhor me identificam, 
sem deixar de aplaudir as minhas renúncias. 
A todas as outras mulheres que não sou 
– ou que não sou ainda –
 meu sorriso e uma piscadinha cúmplice.

Martha Medeiros

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