O que me impede de tosar o cabelo,
fazer uma tatuagem no braço
e comprar uma jaqueta vermelha? Nada.
Simplesmente acontece de a gente
gostar muito de certas coisas,
mesmo não tendo impulso suficiente
para adotá-las como nossas.
É um exercício elevado de apreciação:
saúdo quem acorda às 5h da manhã para correr
e também quem atravessa a noite dançando
– não faço uma coisa nem outra.
Admiro quem tira um ano sabático
para meditar num ashram
e também quem vai a Nova York de três em três meses.
Quem decide não ter filhos
e quem tem e ainda adota alguns.
Quem coleciona amantes
e quem mantém um único e eterno casamento.
Quisera eu poder contar com sete vidas
para abraçar todos os jeitos de ser e de estar no mundo,
mas tendo uma vidinha só,
faço as escolhas que melhor me identificam,
sem deixar de aplaudir as minhas renúncias.
A todas as outras mulheres que não sou
– ou que não sou ainda –
meu sorriso e uma piscadinha cúmplice.
Martha Medeiros

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