quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Senhor...



Livrai-me dos solavancos 
que misturam e confundem meus sentimentos.
Dos estragos causados pelo coração endurecido.
Das tantas palavras que me leva a pensar que sou “sabida”.
De usar pouco silêncio, quando ele é tão necessário.
Do tempo perdido com coisas sérias dos adultos.
De anoitecer sem agradecer e amanhecer sem sorrir.
De querer ser grande, 
sem ter sapato de salto alto suficiente.
Das palavras ásperas que tanto machucam.
De sentir saudade do que não tem jeito.
Da solidão, com tanta gente perto.
Do apego aos grãos que se dissipam facilmente.
De perder tempo com o que foi perdido.
Das certezas que me privam
da beleza de tecer sonhos incertos.
Dos carinhos econômicos por medo de se entregar.
Da falta dos riscos que emocionam a vida.
De todas as faltas. 
Da falta de coragem, da falta da música,
da falta do toque, da falta de amizade,
da falta de fé e de amor.
E liberta-me de usar as hipóteses do desaforo 
de ser normal e viver o óbvio, engaiolada nas convicções. 
Que eu renasça com a sensação de que sou poeta,
sonhadora, louca e majestosamente viva, 
sem precisar me preocupar em explicar as razões disso.

Ita Portugal


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