terça-feira, 20 de junho de 2017

A pessoa machucada tem memória seletiva.


Só se recorda do que sangra.
E navega na amargura de uma mágoa que imobiliza. 
Vai tomando suntuosos coquetéis de veneno.
Muitas pessoas feridas esquecem que também feriram. 
Não conseguem entender que, muitas vezes, 
pisaram sobre o outro despedaçado pelo chão.
O sofrimento cria memórias inexistentes.
Faz a boca, bêbada, 
arrastar a alma para o abismo das fantasias. 
Não há diálogo onde as feridas estão engatilhadas,
prestes a atirar. 
Vai com calma, 
deixe o tempo suturar a fissura
que angustia quem dói.
Só então o perdão poderá brotar, 
e a vida fugirá da correnteza do suicídio...

Andrade Moraes

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