domingo, 2 de fevereiro de 2014

Mudanças.


Ouço com frequência pessoas dizerem que fulano,
sicrano, beltrano, não mudarão, 
ao fazer referência a dificuldades que experimentam,
sejam lá em quais territórios da vida. 
Pior até: 
não mudarão nunca, 
esse tempo que quer ser algoz
das mais sinceras tentativas 
e das mais ternas esperanças.
Dizem, às vezes, com ares de profecia inequívoca. 
Com o tom assertivo da sentença. 
Com a perspectiva que não considera 
a vontade de cada um, o tempo de cada um, 
a história de cada um.
A força dos gestos, embora tantas vezes ainda tímidos,
ainda ensaios, ainda infrutíferos. 
A ação transformadora da impermanência, 
com os contextos que cria e os desdobramentos que produz.
Dizem, esquecidas das voltas que o mundo dá.
Dos caminhos que trilha e descobre, dia após dia,
experiência a experiência, todo coração. 
Dizem, esquecidas da gentileza.
Eu também já disse, 
num tempo em que meu julgamento 
era maior e a auto-observação era só palavra.
Não digo mais, 
aprendi principalmente na convivência comigo 
que mudança um monte de vezes é inevitável,
 que em alguns contextos 
pode fazer muita diferença, 
mas que também é coisa trabalhosa e delicada. 
Que, em algumas circunstâncias, 
não adianta querer mudar se ainda não se pode: 
como num jogo de pega-varetas, 
há movimentos capazes 
de fazer as outras peças todas desmoronarem. 
No jogo, tranquilo, apenas perdemos a rodada; 
na vida, a história pode complicar.
Mudança nem sempre é pra quando se quer,
tem vez que é também pra quando já se consegue. 
Claro que é possível conseguir 
quando realmente se deseja,
ninguém está condenado a paralisar 
em lugares indesejados
 para não desmentir a profecia alheia,
mas é preciso ter paciência, estoques dela. 
Eu já mudei muito.
Eu já mudei enquanto nem mesmo percebia
pela ação silenciosa de acontecimentos.
Eu já mudei coisas que eu nem acreditava ser capaz,
poucas e valiosas.
Eu mudo todo dia como toda gente. 
E também aquilo que, embora eu queira tanto,
ainda não consigo mudar em mim 
me torna mais empática, mais generosa, mais confiante
de que somos todos capazes das mudanças 
que podem nos tornar melhores, 
primeiro para nós mesmos,
se não desistirmos de nós mesmos.
Mas, no nosso tempo.
 Gentilmente.
Com gratidão àquilo que já foi conquistado.
Passo a passo daqueles que de verdade já conseguimos dar.

Ana Jácomo

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